terça-feira, 13 de novembro de 2012

Roosevelt Bala_homem forte do heavy metal


O homem forte do heavy metal


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Roosevelt Bala conta toda a história do primeiro grupo de "rock pauleira" do Brasil em entrevista exclusiva

Por Elielton Amador e Raissa Lennon Fotos: Elielton Amador e arquivo pessoal
 
O garoto Roosevelt de Miranda Cavalcante, o Bala, que circulava pelas ruas da Cidade Velha e escutava a Jovem Guarda no rádio nunca imaginaria que um dia se tornaria uma lenda viva. Uma lenda do heavy metal, em Belém do Pará!  Isso mesmo, a primeira banda de heavy metal do Brasil nasceu em Belém. Depois de aprender a tocar os power chords, que eles nunca saberiam como se executava não fosse um guitarrista nerd que dava "aula" de sociologia, eles tentaram ser a banda mais pesada e mais rápida do mundo. E talvez tenham conseguido por um tempo: a banda é tida como precursora do thrash metal. Estamos falando do Stress. A banda liderada por 35 anos por Roosevelt, seu eterno vocalista, comera 30 anos do lançamento de seu primeiro disco.
Nesta entrevista exclusiva, Bala conta a história nunca antes contada por inteiro. Como cresceram em Belém fazendo shows que eles próprios produziam com a ajuda de amigos, como fizeram versões de suas próprias canções em português para serem entendidos, e como roubaram a master do primeiro e lendário disco, que acharam ruim. E como largaram os empregos para tentar a sorte no Sul Maravilha. E não se renderam ao sucesso.
Revelações como a de que ele quase entrou para a banda Yahoo, gravações perdidas, quase tudo está aqui. Duas semanas antes do show de comemoração do 30º aniversário do lançamento de "Stress", o álbum, no próximo dia 10 de novembro no Memorial do Povos, em Belém, Bala recebeu a equipe doPará Música duas vezes para contar uma história tão grande. A primeira foi no espaço cultural Ná Figueredo. A segunda foi no deck da piscina do Hilton Hotel, onde ele teve que se abrigar do sol pois estava numa crise de rinite alérgica. Mesmo assim, entre um intervalo e outro, ele contou sua história em detalhes.
A Stress é lenda e orgulho paraense. Como o próprio Bala costuma dizer, “ninguém tira isso da gente”. Sem mais delongas vá direto para essa entrevista concedida ao editor Elielton Amador e à repórter Raissa Lennon. Ao final da entrevista veja a chamada do Blog Metal Pará para o show comemorativo. 
Como foi que surgiu o Stress? Conta um pouco dessa história.
Stress é uma banda que já existia em meados dos anos 60, ela tinha o nome de Pinngo D’gua, mas eu ainda não sabia da existência dela. Eu conheci os integrantes da banda quando entrei para a Escola técnica em 1975. Eles me viram cantarolando uma música do Led Zepplin no fundo da sala e isso era uma coisa diferente, porque só de ouvir rock naquela época, já era uma coisa de outro mundo. Foi isso que nos levou a ter uma amizade logo de cara. “Ei, tu é roqueiro?”, a senha era essa para surgir uma grande amizade. Então eu fiquei sabendo que eles tinham uma banda e estavam precisando de um vocalista, mas eu nunca me vi como um vocalista, apesar de cantar algumas músicas, mas nunca pensei em cantar. Quando eu fui pela primeira vez em um ensaio já falaram que eu era o novo vocalista da banda. E eu gostei do ambiente porque era um ambiente novo para mim. Os caras eram todos riquinhos, tinha vários instrumentos de rock, LPs, som legal. E eu gostei da galera de cara, até porque um roqueiro já tem logo uma simpatia com outro. Para completar tinha uma merenda maravilhosa, uma bisnaga de pão, com presunto e queijo, que a gente nem imaginava em comer isso na época. Então, eu não faltei mais nenhum ensaio. Foi assim que eu me tornei um cantor de verdade. Fui aprendendo e cantar em inglês e me interessar por música, principalmente pelo rock’n’roll.
Qual era a formação da banda nessa época?
Quem fazia parte do Pinngo D’água, que era o nome da banda naquela época era o Wilson Mota, que foi o cara que me convidou para ir aos ensaios, Paulo Lima que era o baixista antigo, [dono do bar Arara Hippie] tinha o tecladista que era o Leonardo Renda e o baterista que era o André que esta com a gente até hoje, também tinha um guitarrista chamado Sergio Coelho. Essa era a formação do Pinngo D’água, que tinha esse nome porque o bumbo da bateria não era redondo, ele era o formado de uma lágrima deitada, com dois “n”.
Então, eu cheguei lá e me enturmei com os caras e eu percebi que eu tinha um timbre legal para o rock, mas eu não tinha técnica nenhuma, mas eu tinha muita vontade de aprender. Era uma novidade para mim, poder não só ouvir, mas partilhar da música e fazer parte daquele contexto. Mas levou um tempo para eu me assumir como cantor, quem me incentivou mesmo a cantar foi outro guitarrista chamado Pedro Valente, que entrou depois.
O Pedro é uma das lendas da carreira do Stresse, como foi que vocês o conheceram? Por que ele foi tão importante para a banda?
É que com essa formação inicial a gente conseguia tocar um leque pequeno de músicas, na verdade eram umas músicas não tão pesadas, como Beatles, Rolling Stones etc. E a gente conheceu o Pedro em 1976, antes disso, a gente já se apresentava nas festinhas de aniversário dos nossos amigos que estavam fazendo 15 anos, mas era uma coisa sem compromisso. Até que um dia, eu e o Wilson fomos a uma loja no comércio de instrumento, ouvimos uma música do Nazareth tocando. Então, já sabíamos que tinha um roqueiro dentro da loja ouvindo, que era o Pedro. E ele nem parecia um roqueiro, porque ele tinha uma cara de intelectual, com aqueles óculos fundo de garrafa. E coincidentemente estava passando a chamada do especial de fim de ano na Rede Globo, naquela época os especiais tocavam rock, isso de 1975 para 1976. Então passou várias bandas de rock progressivo, dentre elas tinha uma chamada Premiata Forneria Marconi, de rock italiano, que ninguém conhecia. Mas o Pedro interveio e começou a falar tudo sobre a banda, ele fez uma dissertação sobre os caras! “Ei, tu é roqueiro?”, perguntamos logo. Então, surgiu o papo sobre a banda, e ele disse que tinha uma guitarra, que na época era um instrumento caríssimo. E o Wilson já chamou ele para banda na mesma hora e arrastamos ele para o ensaio. E nesse ensaio, ele tocou os acordes majestosos de “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin, que era uma coisa que ninguém sabia fazer certo. Mas ele fazia igualzinho! E achamos ele muito bom, e percebemos logo que o cara era gênio. Ele tocava riffs antológicos que a gente não sabia tocar. E saia um som idêntico que a gente ouvia nos LPs. E que a gente não sabia fazer, porque a gente não tinha acesso a vídeos, só algumas revistinhas que chegavam às bancas. E com a entrada do Pedro, foi a grande reviravolta da banda, porque encerramos com o repertório de Beatles, desse som mais calmo, e começamos a tocar Deed Purple, Black Sabbath, Led Zeppelin, e várias outras coisas, se abriu um leque enorme a partir daí.
Mas nessa época vocês já eram o Stress?
Essa foi mais uma intervenção do Pedro. A gente queria mudar o nome, porque Pinngo D’água não é nome de banda de rock, aí, a gente chegou a chamar a banda de Electra, depois de TNT. E curiosamente, até nisso fomos precursores, porque depois surgiu no rock mundial a banda Electra e TNT que foram famosíssimas. Mas, aí, o Pedro sugeriu, que tal o nome Stress? E perguntamos o que queria dizer “stress”? E, intelectual do jeito que ele era, começou mais uma vez a fazer uma dissertação sobre o significado da palavra, disse que era um tema atual da cidade grande, do mundo contemporâneo, agitação. E o significado tinha tudo a ver com a gente. E começamos a tocar com esse nome só em 1977, no nosso primeiro show que foi no Teatro São Cristovão, que ficava na Magalhães Barata. No show demos um subtítulo chamado “Uma escada para o céu”, uma alusão a “Stairway to Heaven”. Esse show completou 35 anos no dia 10 de outubro, foi uma data história. No show de estreia ainda éramos uma banda cover, mas de rock pesado.
E como foi essa entrada de vocês no espaço do Teatro? Era normal naquela época shows nesse espaço?
O Teatro não tinha utilidade nenhuma praticamente, era raro ouvir falar que tinha atividades lá. Acho que a nossa iniciativa despertou para depois as pessoas utilizarem o espaço para shows. Ate então era só a gente que tocava rock, e não tivemos dificuldade para entrar no Teatro. E o nosso show, foi o primeiro evento de rock na cidade. Paralelamente a isso, estava se formando essa cena roqueira na cidade, muitos ainda não se conheciam, mas que começaram a se conhecer nesses eventos de rock, e a partir daí o movimento do rock foi se conhecendo. E naquela época, tinha uma comoção muito mais do que agora, a gente tinha uma vontade de conhecer uma pessoa diferente, com os mesmos gostos que a gente. Então, o nosso som cover era muito bem vindo, até porque tocávamos igual aos caras do rock, e na época nunca teríamos acesso a um Iron Maiden da vida. Isso criou uma sintonia muito grande e estabelecemos grandes amizades.
E como foi essa transição até o lançamento do primeiro disco da banda? Até quando vocês tocaram cover?
Fizemos cada vez mais shows, e eles ficavam cada vez mais lotados, e ficamos uma banda conhecida na cidade. Isso era difícil conseguir. Chegou um momento que queríamos fazer música própria, dentro daquela linha de “rock pesado” ou “rock pauleira”. Porque, até então, achávamos que não tínhamos condições de fazer isso. Embora eu não soubesse tocar um acorde, eu tinha facilidade para compor alguma coisa, e eu me reunia com o André, o baterista. E ele tinha ideias para fazer letras e eu para fazer os riffs e os ritmos. A gente era praticamente o Roberto e Erasmo do Heavy Metal, porque a gente criou músicas que ficaram para a história. Outra curiosidade, é que começamos a cantar em inglês, porque tínhamos aquela sensação, que muita gente tem até hoje, que o inglês era a língua adequada para o rock pesado. E o Leonardo sabia muito de inglês, ele sempre fazia intercambio para lá, e sempre trazia as novidades dos discos, por isso estávamos sempre atualizados com a sonoridade das bandas de fora. E qual era o nosso pensamento? O que tem de mais pesado no mundo? É o Judas Priest? Então, temos que ser mais pesados e mais rápidos que eles. Temos que ser a banda mais rápida e mais pesada de todo o planeta! E compomos tudo na mesma levada pauleira. Foi aí que surgiram as músicas que entraram no primeiro disco, como “Chacina”, “Mate o Réu”, e outras com essa inspiração de ser rápidas de pesadas. Nesse período lançamos nossas duas primeiras músicas que foi “Mate o Réu” e “Stressencefalograma”. Mas as pessoas vinham perguntar para gente o que dizia nossa letra. Então, a gente tinha que ficar explicando para as pessoas. Tínhamos consciência que a nossa musicalidade era forte, e se a gente aliasse isso a uma música rapidamente entendível, teríamos duas coisas muito importantes. E quando passamos as músicas para a língua portuguesa a nossa mensagem ganhou uma força muito maior. A gente se colocava na posição do ouvinte. Tanto que a gente criou uma identidade com os roqueiros, com letras que falava do cotidiano, letras simples, que as pessoas gostavam. E foi com essa identidade que surgiu o Stress.
Então essas duas músicas “Mate o Réu” e “Stressencefalograma” eram em inglês originalmente?
Sim, tudo inglês. “Mate o Réu” se chamava “Go to hell”. E fizemos uma versão da nossa própria música, em português, mas a tradução não era ao pé da letra, só o ritmo e a melodia que era o mesmo. Inclusive essas versões originais estão sendo gravadas por uma banda de São Paulo chamada Em Ruínas, e fomos para o estúdio com eles, e os caras, vão colocar o vocal em inglês, com a letra original. Mas a gente defende muito o metal em português, tem gente que fala que não dá para fazer. Só que esse tabu não existe mais, e para nós nunca existiu. O cara canta em inglês porque ele quer uma projeção internacional ou algo assim. Tudo bem, mas eu quero que a minha banda seja entendida aqui no Brasil. E para mim o metal cem por cento brasileiro é o cantado em português, porque quando cantado em inglês é uma banda brasileira de metal e não uma banda de metal brasileiro. Existe essa diferença, para mim.
Vocês são conhecidos como os precursores do Heavy Metal, como era esse cenário, como foi naquela época?
O termo Heavy Metal nem era conhecido quando começamos a fazer músicas. Então, a gente nem sabia o que era Heavy Metal, na nossa cabeça fazíamos rock pauleira, que era o termo usado na época. E a gente nem imaginava que éramos os pioneiros, porque a gente fazia esse som aqui em Belém, então pensávamos que outras bandas estavam fazendo isso em São Paulo, Rio de Janeiro.
E vocês tinham conhecimento dessas outras bandas mais progressivas, como “Os folhas”, etc?
Sim, a gente conhecia tudo, estávamos antenados para tudo. A gente respirava música, pesquisávamos, e conhecia inclusive as bandas de rock brasileiras. Os nossos ídolos na época era o pessoal do Casa das Máquinas, Mutantes, Joelho de Porco.
Mas não tinha intercâmbio? Era uma cena que estava se formando?
Essa cena existia no Brasil afora, essa era a nossa referência, mas a gente queria fazer uma coisa mais pesada do que o que eles faziam lá fora. Mas bebemos nessa fonte, porque o rock brasileiro começou com eles, quer dizer começou antes, com a Jovem Guarda. E foi a Jovem Guarda que mais me influenciou quando criança. E eu curtia pra caramba ouvir o iê iê iê, na rádio AM, rádio Marajoara, Rádio Cube.
E como foi o processo de gravação desse disco?
Em 1980 já estávamos com algumas músicas prontas. E a gente já tinha tocado em praticamente todos os teatros e locais da cidade, e a gente achava que tínhamos que dar um passo maior. E esse passo seria a gravação de músicas próprias. Então, nos entramos em contato com um estúdio no Rio de Janeiro, que chegou até nós através de um cara chamado Profeta, que agitava a cena em Belém naquela época. E ele disse que esse estúdio tinha todas as condições de gravar o nosso som.Nós juntamos todas as nossas economias, em agosto de 1982. Chegando lá, as condições do estúdio Sonoviso eram bem ruinzinhas, tinha uma bateria toda quebrada, que a gente teve que amarrar barbante, fita isolante, isso porque falaram que lá tinha tudo. Mas como a gente já estava lá, começamos a gravar. Foi tudo muito corrido, porque o tempo era curto, a hora de gravação era uma fortuna. Enfim, todos os custos estavam muito altos porque a gente saiu daqui de Belém, tinha que cobrir passagem, estadia em hotel. O custo era muito alto para se gravar um disco, algo em torno de 50 mil reais hoje. E éramos bancados pelos nossos pais, mas mesmo assim a gente decidiu meter a cara. E a gravação foi feita muito às pressas, mas a gente estava bem ensaiado, tínhamos tocado em muitos festivais, com muita precisão, e ainda assim teve alguns erros que a gente resolveu deixar pra lá mesmo, porque não dava mais para pagar nada. E assim em 16 horas conseguimos gravar todas as músicas, não foi do jeito que a gente queria, e quando a gente ouviu na cabine de gravação já percebemos que ela estava muito tosca. Que não era nada daquilo que a gente imaginava. Então, não tinha nada daquilo que a gente queria. E para completar, quando terminou, o cara disse que ainda estava faltando a gente pagar duas horas referentes ao período de mixagem. Mixagem de duas horas já era correria, mas só isso era equivalente a uns 2 mil reais. Então, a gente disse que não tinha o dinheiro, e como a gravação estava ruim mesmo, esperamos ele ir ao banheiro e saímos correndo de lá e nunca mais tivemos contato com os caras. E ficamos naquele dilema, do que fazer com aquela gravação ruim. Então resolvemos prensar mil cópias para dar para alguns amigos. E conseguimos o apoio da Pepsi para fazer só a prensagem das capas, no entanto eles colocaram uma logomarca enorme na contracapa do disco, e até hoje chamam o disco de “disco da Pepsi”, e ficou rotulado assim. Então, a gente deu prosseguimento na história e resolvemos fazer o show de lançamento em Belém. Show este que aconteceu em novembro de 1982, dia 13 ou 14, a gente não tem certeza. Mas eu acho que foi 14. E a gente conseguiu reunir no estádio da Curuzú, e a gente deu muita sorte, porque no dia 15 ia ter eleições e não tinha muitos eventos na cidade, e geralmente o pessoal não liberava para fazer shows na cidade, mas não sei porque eles nos deram a licença para fazer nesse dia. E conseguimos também uma mídia de televisão, que naquela época era reservada só às grandes bandas, porque os pais do Leonardo Renda eram muito amigos do Rômulo Maiorana, o pai. E com todos esses fatores conseguimos que o nosso evento fosse o único evento de porte na cidade. Foram cerca de 20 mil pessoas, que era um recorde para bandas locais, nem sei se hoje já conseguiram superar essa marca. O Iron Maiden veio aqui e colocou 12 mil pessoas.
E como foi esse show?
Tiveram outras bandas locais, bandas como o Chronos, o Apocalipse, The Podres. Inclusive o The Podre tem uma história legal, porque eles nunca tinham tocado com um instrumento de verdade na vida deles, porque era muito caro. E eles tinham muita dificuldade, eles tinham uma bateria feita de lata, uma coisa muito difícil. Decidimos dar uma força pros caras e colocamos eles pra tocar nesse show de lançamento. E os caras fizeram maior terror lá, falaram meia hora de palavrão, jogaram saco podre na plateia, uma coisa punk mesmo. Eu lembro que tinha muitas atrações, show de MPB, desfile de moda, era um monte de coisa. Era muito artesanal, nos que fizemos o palco junto com os amigos, e todo mundo se ajudava. Mas teve uma hora que a galera já estava pressionando para a banda entrar. Teve até algumas atrações que não se apresentaram. Mas a gente entrou e foi um puta show mesmo, show da pesada, a galera foi à loucura, uma sintonia impressionante entre o público e o palco, um show histórico realmente! E a partir desse show percebemos que não tinha muita coisa para fazer em Belém, tocamos em teatro, ginásio e estádio de futebol, estava na hora de alçar voos mais altos. E logo depois o André levou cópias do nosso LP par o Rio de Janeiro e entregou um deles para a produtora do Circo Voador, Maria Juçá, que estava começando com o projeto Rock Voador, que acontecia todo o fim de semana. E lá tocavam bandas de rock de todo o Brasil e o Circo Voador estava ficando muito conhecido. E essa produtora quando ouviu o nosso disco ficou maravilhada com aquilo, porque ela nunca tinha ouvido nada parecido. Então, a gente que ia abrir o show do Barão Vermelho, acabamos sendo a atração principal, e eles que abriram o show para a gente. Em abril de 1983 fomos tocar pela primeira vez no Circo Voador. Tudo parecia um sonho de garoto. Foi legal porque junto com o movimento Rock Voador, tinha a Rádio Fluminense, apelidada de Rádio Maldita, porque só tocava rock. E ela era o terceiro lugar das rádios mais ouvidas no Rio de Janeiro, e ela começou a veicular uma música nossa chamada “O oráculo de Judas” e ela ficou muito conhecida lá. Inclusive, na tarde antes do shows, os caras tocaram na rádio todas as músicas do disco comentando faixa a faixa as nossas músicas.
Quem abriu o show de vocês lá?
Tinha o Barão Vermelho, o Água Brava, tinha um tal de Tony Roqueiro.Tocaram umas bandas de qualidade, de rock, blues, mas nada muito pauleira. O som era muito bom, ficamos muito impressionados, com o profissionalismo e a qualidade do lugar. E estávamos com medo que ninguém gostasse do nosso som. E o Circo Voador já estava lotado de gente que queria saber que banda era aquela que tocava aquele som pesado, e ter contato com a gente. E depois do show ficamos quase duas horas conversando com a molecada, e ninguém acreditava que a gente era de Belém do Pará. E os caras ficavam incrédulos. E o Circo Voador ficou lotado e completamente tomado de gente. Daí a gente chamou um apresentador lá para apresentar o nosso show, um apresentador meio maluco, amigo nosso. “Um apresentador pauleira!” Tudo para nós tinha que ser pauleira! Aí, depois virou tradição ele apresentar. A galera foi à loucura com o nosso som e tocamos todas as músicas do nosso primeiro disco. E nesse dia, foi a primeira vez que o Paulinho Gui veio tocar com a gente, sem fazer nenhum ensaio. Mas ele ouviu o disco e tocou igualzinho. O Pedro já não estava mais com a gente porque ele foi embora para a França, porque ele tinha outras ideias, ele era bem intelectualizado, gostava de ciências políticas, era um gênio mesmo, e a gente perdeu o contato com ele. Até hoje a gente não fala mais com ele, 30 anos depois, inclusive a família dele quase não tem contato com ele. Outra coisa legal do show foi que quando nós terminamos de tocar, eu olhei pro André na bateria, ele com o olho esbugalhado, e me deu uma doida também que eu fui quebrando tudo, entrei com o baixo no meio da bateria, e quando eu vi estava tudo no chão. Quebramos todos os instrumentos, palco, pedestal, tudo. E eu pensei que a gente estava ferrado! Mas, aí, a galera começou a subir no palco, eu até pensei que iam dar porrada na gente, mas ao invés disso, os caras começaram a carregar a gente! Nesse dia foi a primeira vez que eu ouvi alguém dizer que era a primeira banda de Heavy Metal do Brasil. E eu custei a acreditar, mas depois de alguns meses viemos a constatar que realmente a gente era a primeira, porque não tinha banda fazendo o nosso som em lugar nenhum. Esse título foi contestado por algumas bandas de rock como o Maiden Brasil, mas, na verdade, eles eram uma banda de rock’n’roll. Só que hoje em dia ninguém contesta nada.
E a crítica de época dizia isso também?
Depois desse show tivemos mais visibilidade. As revistas eram poucas, mas as que tinham diziam que a gente era “a banda” de Heavy Metal. Mas foi a partir desse show que as portas se abriram para vários outros convites no Rio de Janeiro, para continuar tocando no Circo Voador. E ali era o point mesmo, e fizemos vários shows lá. Até que chegou uma hora que começamos a pensar, que ou a gente morava no Rio ou a banda fica sendo como hobby, porque a gente estava gastando muito dinheiro com passagem de avião que era em torno de 5 mil reais nos dias de hoje.
Mas vocês ganhavam dinheiro com os shows?
A gente nunca ganhou muito dinheiro com show não, nem naquele show de 20 mil pessoas nós ganhamos, porque não estávamos muito preocupados com isso, queríamos tocar e fazer onda. Mas nesse dia do Circo Voador ganhamos nosso primeiro cachê, que era 40% da bilheteria, porque erámos a banda principal, mas isso a gente só veio saber depois, porque tocamos a uma hora da manhã, e esse era o horário da banda principal (depois tinham ainda outras bandas). E na época era uma boa grana até. E aquilo foi um marco para gente. Aí chegou uma hora que ficou insustentável, alguns integrantes já tinham terminado a faculdade, eu era concursado da maior empresa do Brasil, que era a Petrobras, passei em primeiro lugar no Brasil todo. Eu era um cara inteligente! E a gente tinha que resolver se a gente ia pro Rio ou abandonava o sonho. O André foi o primeiro a ficar no Rio de Janeiro já, em 84, eu fui no início de 1985, larguei meu emprego na Petrobras, larguei tudo. O pessoal me chama de doido até hoje. Fiquei três anos na Petrobras, e eu ganhava uma grana preta para um garoto de 21 anos, mas não hesitei em largar tudo. Mas o resto da banda não pode ir, e foi aí que nos juntamos com dois caras de uma banda do Rio, de metal pesado, que a gente tinha conhecido lá no Circo Voador, de uma vez que eles tinham aberto um show nosso lá. Isso em janeiro de 1985, mesmo ano que teve o Rock’in’Rio que tornou o Heavy Metal conhecido. O lado positivo foi que as gravadoras começaram a procurar bandas nacionais que faziam aquele estilo. Foi aí que a Polygram nos convidou para gravar um disco. Fechamos um acordo e conseguimos 10 músicas para gravar, o que seria o “Flor Atômica”. Um contrato com uma gravadora era uma coisa de se festejar muito, eles bancavam uma gravação que era uma fortuna, fora isso eles faziam a prensagem e promoviam o disco, botavam nas lojas. Dessa vez, ao invés de 16 horas, tivemos 76 horas de estúdio, então deu para a gente fazer com um tempo legal. A gente queria que a distorção fosse mais pesada, só que não deu certo por conta do amplificador que estava meio quebrado, então a gente acha que o disco não ficou tão pesado quanto a gente queria. Mas ainda sim o disco ficou muito bem produzido. O produtor era o João Augusto, muito talentoso, cresceu dentro da Polygram, e ouvia muito a nossa ideia. Esse disco abriu muitas portas também porque o disco foi distribuído por todo o Brasil.
E como foi o resultado disso?
Pois é, a gente chegou a ir à televisão, tocamos no Programa da Xuxa, na antiga TV Manchete, que não passa na TV local na época (em Belém). As revistas também fizeram resenhas elogiosas do disco, O Jornal do Brasil, O Globo. Todos falavam muito bem. Era uma coisa pioneira. Continuamos a fazer shows no Sul e Sudeste, junto com o movimento de rock 1980, com bandas como Barão Vermelho, Legião Urbana, Ultraje a Rigor. No ano seguinte, em 1986, já vimos a oportunidade de gravar um próximo LP. Foi quando o rock nacional deu certa guinada, e as gravadoras formaram um cartel com as rádios. Mas o nosso som não tinha padrão nenhum para as rádios, porque era muito pesado. Mas a gente até tentou, fizemos uma gravação no estúdio do Ultraje a Rigor, em São Paulo, e gravamos com aparelhos de nível internacional mesmo, tinha uma parece de amplificadores marchel, com autofalantes que ficavam soprando na cara da gente, o som que a gente sempre sonhou. As músicas eram um pouco mais Hard Rock, só que ainda ficou pesado. E o cara (da gravadora) disse que estava muito pesado. Mas não dava para ser mais leve do que isso. Chegamos a gravar em outro estúdio do Rio, com uma música já quase pop, mas ainda tinha guitarra distorcida, só que a guitarra distorcida era proibida naquela época. Isso por causa do cartel das rádios e assim que nós perdemos o contato com as rádios.
Mas o que aconteceu com essa gravação?
Ela ficou guardada todos esses anos, mas foi lançada ano passado, com faixa bônus do nosso álbum ao vivo, por um selo da Europa chamado Metal Soldiers. Esse selo já regravou quatro discos com a gente, e o primeiro foi esse Live’n’Memory. “Live”, porque a primeira parte é ao vivo e “Memory”, porque o guitarrista que gravou uma faixa com a gente, o Christian, se mudou para os Estados Unidos e ele recebeu a notícia de que seria o novo guitarrista do Faith No More, e em uma festinha comemorando ele exagerou e morreu de overdose.
Por que não foi lançado aqui no Brasil?
Porque o selo é importado, a pessoa só pode conseguir se ela pedir de fora. Porque não tem nenhuma gravadora nacional lançando ele. É um disco raríssimo. Sobre esse selo Metal Soldiers, ele esta relançando toda a nossa obra, é um produtor que nos descobriu pela internet. Mas na verdade, ele não era produtor, ele se tornou produtor a partir do momento que ele relançou os nossos discos. Depois lançou discos de outras bandas.
E o que aconteceu depois disso?
Então, foi isso, o próprio movimento Rock Brasil perdeu a força, porque tocavam músicas ruins nas rádios. E nessas alturas, 1987 fazíamos poucos shows, eu vim embora para Belém, o André ficou no Rio de Janeiro, porque ele estava trabalhando por lá. E então a gente resolveu dar um tempo com a banda para ver se o rock voltava à tona de novo. Em 1995 quando o André estava em Belém, nos reunimos e gravamos uma demo, e gravamos um CD chamado “Stress 3” com músicas inéditas, no estúdio do Helder Avelar. Mas não aconteceu nada com esse disco, ele é raríssimo, foram lançadas só quinhentas cópias dele. E esse disco também vai ser relançado pelo selo europeu, já com outro nome, outra roupagem, com faixas bônus. Mas o produtor preza muito pela qualidade, com encartes caprichadíssimos. Em 2001 houve também o relançamento do primeiro LP nosso, por um selo alemão, com uma filial em Brasília. Eles lançaram em CD e umas cópias em vinil também. São copias raras também. Por causa disso, a gente resolveu voltar a tocar de verdade, embora os shows não sejam muitos em Belém, até porque nunca foram muitos mesmos, era uma média de um show por ano quando éramos jovens. E desde aí a gente vem tocando sempre. Em 2005, resolvemos gravar o nosso DVD, que a gente não tinha imagem oficial da banda tocando, as imagens antigas a gente quase não tem. Então, gravamos o DVD, gravado com o apoio da TV cultura em 5 de maio de 2005, no Teatro Gasômetro, e o áudio foi muito elogiado no exterior. Tanto é que o áudio deu origem ao disco “Live”, relançado no exterior.
Mas você não se arrepende de nada do que fez pela música?
Eu cheguei a terminar a Unversidade, me formei em Processamentos de Dados pela Universidade Federal do Pará e trabalhei na área durante dois anos. Mas eu tive que assumir que eu gosto mesmo de trabalhar com música. Por isso eu não me arrependo de nada. Tudo que eu aprendi com o rock não há nada que pague, não há universidade que pague. Eu estaria privado de tudo isso que eu vivi se eu tivesse enfurnado no escritório de uma empresa com o bolso cheio de dinheiro. Mas valeu tudo a pena até mesmo ter passado por essas empresas, porque aprendi. Mas pode-se dizer que o meu envolvimento com a música foi muito precoce, desde criança, já estava escrito.
Matéria do jornal O Globo atesta o reconhecimentoMatéria do jornal O Globo atesta o reconhecimento Mas e de não ter feito o som que a rádio queria naquela época?
Eu poderia ter muito dinheiro naquela época, fui até cogitado para entrar na banda Yahoo, que era um projeto do Robertinho do Recife, mas eu nunca quis sair do Stress. Trabalhos paralelos todo mundo faz, mas eu nunca quis largar o Stress, que foi o que eu batalhei. Mesmo com tudo isso, o Stress nunca morreu, sempre esteve aqui. E agora a gente esta com muito mais maturidade de encarar a história, queremos continuar tocando. A cena rock esta muito boa, não que a gente vá largar tudo, mas dá para fazer uma coisa mais madura. Ninguém quer mais fazer sucesso, ser rico. Agora é aproveitar, se divertir. Quando a gente vai para fora do Estado, o pessoal reconhece a gente mesmo, trata a gente como ídolos, e isso é muito legal e dá forças para a gente continuar na estrada.
Qual é o conselho que você dá para os garotos que estão começando agora?
Hoje em dia esta tudo muito fácil, de fácil acesso, esta tudo diferente. Mas tem uma coisa que tem que ser igual. Tu tens que fazer por ti, ensaiar, ser profissional, e fazer a coisa acontecer, não esperar por festival. Porque o cara que faz um festival obviamente que ele vai chamar os conhecidos dele. Tu tens que fazer o teu próprio festival, fazer o teu show. Com o Stress a gente que montava o palco, e quando terminava nós íamos tirando sozinhos tudo, ajeitando tudo.  Tem que criar situações que tu possa fazer o teu trabalho. A gente vendeu tudo para gravar o nosso LP, por exemplo. E essa força de vontade tem que acontecer sempre.
A experiência de vocês esta dentro de um caldeirão cultural que é o Pará. Como tu vê hoje a cena paraense hoje, de Gaby Amarantos, Gang do Eletro, Felipe Cordeiro?
Eu acho sensacional porque durante muito tempo Belém do Pará ficou sendo só receptora, absorvendo a cultura que vinha dos outros estados. E veio muita porcaria, por sinal. Agora não, o Pará esta exportando música também. Então, agora é hora de conhecer o que rola aqui, vão conhecer um monte de porcaria também, mas também tem muita coisa boa. Agora é a hora da vingança, vão sair as coisas boas e não tão boas. Se agora a bola da vez é o tecnomelody, daqui a pouco será o nosso rock, a nossa guitarrada. Isso é bom. Isso que é o lado positivo, e quem tiver qualidade vai se destacar. Quem for bom vai ter o seu espaço. O Brasil esta olhando para nós.
E como vai ser esse show em comemoração aos 30 anos desde o lançamento do primeiro álbum?
Esse show é um show alusivo do lançamento do nosso primeiro álbum, em novembro de 1982. Essa data não poderia passar em branco. Eu tenho muito carinho por essa obra, apesar de termos achado que a obra era ruim, no primeiro momento, que nem queríamos lançar, o tempo veio dizer que esse disco é fundamental para a história do Heavy Metal no Brasil e do próprio rock’n’roll. Já que não podemos levar todos os expoentes dessa cena, que participaram da nossa história, a gente vai levar uma boa mostra, colocando no mesmo palco Jolly Jocker, DNA, Delinquentes e o Stress. Também tem convidados, mas é surpresa, e não vamos divulgar em lugar nenhum! E pra coroar chamamos o Metamorfose, do Rio de Janeiro, que é uma banda precursora do metal nacional. Então, acho que a festa vai ser completa!
06 de novembro, 2012 - 21h32

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